Seis horas da manhã, mais um dia começando e lá fui eu pro curso de inglês, que para mim, ainda parece ficar do outro lado da cidade. Aos sábados, durante as minhas férias, tenho que andar naquele bom e velho ônibus lotado, onde não se tem um lugar para sentar e todas as pessoas parecem prontas para te arrastar até a porta.
Inacreditavelmente, naquele dia, um lugar vagou assim que passei pela catraca. Isso sim é que é começar o dia com sorte… Ou não. Entrei numa disputa ferrenha de olhares com outra estudante. Quem sentaria primeiro? Um feirante, então passou pela frente da menina, com uma caixa enorme de frutas. Me aproveitei, confesso, e corri para sentar no banco que era motivo da discórdia.
Pronto. Agora, sentada, podia ao menos descansar durante a longa hora que passaria até chegar ao curso. Abri a bolsa e tirei o livro “Convite para um homicídio” da minha autora favorita, Agatha Christie. Mal sabia eu, que o assassinato que aconteceria naquele ônibus era o do meu cérebro.
O passageiro ao lado, meu “colega de banco”, por assim dizer, forçou a mão para sua cintura em um movimento muito rápido, e lendo o que eu lia, só me ocorreu um pensamento: “cacilds, vou ser assaltada”. Não era bem uma arma propriamente dita o que ele puxou. Era um celular, que neste caso, deu no mesmo.
Meu querido capataz começou a tortura. Abriu o celular e em todo o coletivo podia se ouvir “e ainda se vieeeeer, noites traiçoeiras, se a cruz pesada for, Cristo estará contigo…” e blá blá blá. Não que eu não goste desta musica, pelo contrario, até simpatizo, mas a esta altura minha concentração na leitura tinha ido pro espaço. Eu só queria ler, era tão difícil assim que fizessem silêncio?
Então pensei: “Ufa, até que isso não é tão ruim”. Segundos depois, amaldiçoei meu pensamento mil vezes e ele há de arder no mármore do inferno. O meu vizinho querido detonou de vez a nossa relação de respeito. Ouvia-se agora “Rala a tcheca no chão! Hey! Rala a tcheca no chão, a tcheca no chão, a tcheca no chão, mamãe”. E a tortura continuava com “Perereca pra frente, perereca pra trás, pra frente e pra trás”, e logo passou para “Eu sou, eu sou, eu sou seu queimadinho, inho, inho”. Incrível como em uma hora de viagem eu aprendi diversos nomes para o mesmo único órgão sexual feminino, que eu não havia aprendido durante uma vida.
Dei uma rápida olhada para a frente do ônibus, numa pequena fresta que se abriu entre os demais passageiros em pé. Eu podia ver aquela santa criatura que havia disputado comigo, rindo com os olhos da minha ridícula situação. E olhando ao meu redor, vi que o ridículo era imensamente mais ridículo pois TODOS olhavam para mesma direção: a minha.
Olhei de novo para o vizinho que não se tocava da “sem noçãozisse” que estava praticando e pensei: “Vou matar este ser humano aqui mesmo”. Foi quando me toquei que o meu ponto já havia chegado. Só pra facilitar a sua visualização do inferno, eu estava em um dos últimos bancos e tinha que atravessar aquela legião de mil pessoas até chegar à porta. Em meio a gritos de “peraí motô”, corri, empurrei, e depois de tantos micos, nem me importava se incomodava ou não as pessoas. Só queria me livrar daquele suplício. E isso tudo aconteceu até as 8 da manhã de um único dia.